Já ouviu falar em silvicultura preventiva?

Todos os anos, durante o verão, somos confrontados, nos vários meios de comunicação social, com notícias de grandes incêndios florestais, que destroem matos e florestas, assim como bens materiais e vidas humanas. É só nesta altura que se comenta o estado das florestas portuguesas e, por norma, quem comenta o sucedido são membros da proteção civil e dos bombeiros. Mas será que em relação aos incêndios florestais, o Homem só os pode combater e a sua defesa é da inteira responsabilidade dos bombeiros? Obviamente que não!


A silvicultura, e em particular a silvicultura preventiva, dá uma ajuda preciosa na defesa das florestas contra os fogos.


Mas, o que entende por silvicultura? Se procurar no dicionário da língua portuguesa, este indica-nos que consiste na “cultura e conservação das matas e florestas”, mas este significado não traduz o seu conceito nem a sua complexidade.


Atualmente, a silvicultura é considerada uma ciência, ou um ramo das ciências florestais, que se dedica ao “cultivo” de matas e de povoamentos, desde a produção de plantas; ao controlo de pragas e doenças, de forma a garantir a sanidade da floresta; à promoção da fertilidade dos solos que suportam as árvores, e à gestão e exploração das massas florestais, procurando tirar benefícios destes espaços, que podem não ser exclusivamente económicos. Para tal, utiliza os conhecimentos de outras ciências, como por exemplo, a biologia, a ecologia ou até mesmo a economia!


Com a aplicação no terreno da silvicultura, os povoamentos são conduzidos recorrendo a várias técnicas e práticas, que permitem o desenvolvimento das árvores, de acordo com os objetivos pretendidos. Dou-lhe um exemplo. Já reparou que os castanheiros quando são plantados com o objetivo de produzir castanha estão mais separados do que quando o objetivo é apenas a produção de madeira? Isto permite-nos concluir que o compasso utilizado na instalação das árvores não é indiferente, depende, por exemplo, do objetivo da produção e/ou da espécie a utilizar!


Quando, para além das técnicas correntes da silvicultura se aliam outras que poderão ser aplicadas, por exemplo, a instalação dos povoamentos com o objetivo de reduzir a sua combustibilidade e, consequentemente, diminuir o risco de incêndio, entramos no campo da silvicultura preventiva. As diferentes normas preventivas que se podem utilizar para obter florestas com menor risco de incêndio resultam quando aplicadas a parcelas da ordem das centenas de hectares. Esta realidade é, contudo, pouco comum no nosso país, sendo, portanto, necessário, para garantir a sua eficácia, um entendimento entre os proprietários dos terrenos de áreas adjacentes.


Na adoção da silvicultura preventiva é necessário ter em conta várias normas no planeamento de uma arborização, que podem resultar num menor proveito económico, contudo obtêm-se povoamentos mais protegidos dos incêndios… Quando nas linhas de cumeada (também chamadas linhas de separação das águas), optar por uma densidade do arvoredo mais baixa, ou estabelecer cortinas de abrigo estreitas mas densas, com espécies pouco inflamáveis, como os ciprestes ou cedros, com o objetivo de reter as faúlhas, está a recorrer à silvicultura preventiva. Assim como, instalar povoamentos mistos que incluem espécies com maior resistência ao fogo (da floresta mediterrânea a árvore mais resistente é o sobreiro). Ou optar por espécies folhosas autóctones, nas encostas com declives superiores a 45%, já que se encontram melhor adaptadas ao fogo. É também muito importante a existência de aceiros, caminhos e pontos de água devidamente limpos, nos povoamentos florestais.

Folhosas em terrenos declivosos (Foto da autora)

Clotilde Nogueira (Centro Ciência Viva de Bragança) - 2013-09-18 11:53:02