Calhaus do espaço

No passado dia 15 de fevereiro, um acontecimento relativamente raro abriu os telejornais de todo o mundo. A notícia vinha da Rússia, de uma região nos montes Urais, não longe da fronteira com o norte do Casaquistão.

No céu desenhou-se um rasto, esse rasto fez-se luminoso, muito luminoso, e poucos minutos depois ouviram-se várias “explosões”. As principais consequências aos poucos se conheceram: muitos vidros partidos e mais de um milhar de feridos, na sua grande maioria sem gravidade, atingidos por estilhaços de vidros. Devido à proliferação do uso de câmaras de filmar, o fenómeno foi captado casualmente por várias pessoas que se encontravam na zona e rapidamente as imagens se espalharam através da internet e dos órgãos de comunicação social.


O que aconteceu? Como se interpreta tudo o que se viu? O fenómeno pode repetir-se? Pode ser previsto?


A explicação não é muito complicada de dar. Um calhau vindo do espaço encontrou na sua trajetória o planeta que todos habitamos. O meteoro - assim lhe chamam os cientistas - entrou na atmosfera a uma enorme velocidade, estimada em várias dezenas de milhares de km/h, e incendiou-se devido à fricção. Separou-se em muitos fragmentos, que desaceleraram e chegaram ao solo, espalhando-se por uma vasta área. Estes vários pedaços chamam-se, em linguagem científica, meteoritos. Os sons que foram generalizadamente associados a explosões por quem presenciou, não o foram, na verdade. O que se ouviu foram choques sónicos, estrondos característicos da passagem da barreira do som. Em tudo semelhantes aos escutados quando aviões muito rápidos, geralmente militares, atingem a velocidade do som. Foram ouvidos, não no momento em que o rasto luminoso foi avistado, mas poucos minutos depois. Foram vários e estão associados aos diversos choques sónicos dos fragmentos maiores, quando, durante a desaceleração, atingiram a velocidade do som, um pouco acima dos mil quilómetros por hora. Foram estas ondas de choque as responsáveis pela larga maioria dos danos, em vidros partidos. O tamanho do objeto que atingiu neste dia a Rússia foi estimado em, pelo menos, um metro cúbico.


Todos os dias entram na atmosfera terrestre milhares de poeiras ou partículas minúsculas do tamanho de grãos de areia. À noite apercebemo-nos facilmente de algumas delas: são as estrelas cadentes. Contudo, um encontro com um meteoro deste tamanho é comparativamente raro, mas este episódio é bem demonstrador dos riscos a que a Terra está sujeita. Este impacto apanhou-nos de surpresa, ao contrário da passagem, muito perto da Terra e quase em simultâneo, de um asteroide (um corpo de maiores dimensões com cerca de 50 metros de diâmetro), há muito acompanhada e prevista pelos cientistas. Porquê? A razão tem a ver com o tamanho. Muitas vezes os meteoros são demasiado pequenos para serem detetados com antecipação. Contudo, como se viu, suficientemente grandes para fazerem grandes estragos.



Legenda da imagem:
Um dos maiores meteoritos encontrados na Terra, no início do século XX. É o meteorito Mundrabilla, pesa mais de 10 toneladas e está exposto num museu da Austrália.


Direitos de autor: foto de GraemeChurchard, sujeita a licença Creative Commons (cópia e adaptação livre)

José Paulo Matias (Instituto Politécnico de Bragança) - 2013-03-05 13:22:05