Porque é que as janelas dos aviões não abrem?

Em plena campanha eleitoral americana no ano passado, o candidato presidencial republicano Mitt Romney comentou acerca do perigo de não ser possível abrir as janelas dos aviões, à semelhança do que acontece com os automóveis, por exemplo. O episódio deu-se numa aparição pública, durante uma campanha de angariação de fundos, depois de uma aterragem de emergência do avião onde a sua mulher viajava. Nas suas declarações, Romney considerava perigoso que em caso de incêndio a bordo, não fosse possível renovar o ar no cockpit, abrindo as janelas.


Apesar de mais tarde a repórter que deu originalmente a notícia ter tentado esclarecer que se tratava de uma “óbvia brincadeira” do candidato, muitos ficaram com a impressão de que isso seria bastante improvável no contexto da situação de aflição vivida pela sua mulher. De tal modo que não se livrou de muitas anedotas a respeito das suas afirmações.


Brincadeira ou não do candidato presidencial, concentremo-nos no que diz a ciência e expliquemos o que sucederia se fosse possível abrir uma janela. Se o avião voar a uma altitude baixa, não acontece nada de especial. Mas um avião a jato de uma linha aérea comercial, em velocidade de cruzeiro, voa a mais de dez quilómetros de altitude. A esta altitude, a pressão do ar no exterior é muito mais baixa do que a pressão do ar que respiramos normalmente ao nível do mar e que existe dentro do avião: menos de um quarto deste valor. Também a temperatura do ar, que está diretamente relacionada com a pressão, em qualquer gás, é também muitíssimo mais baixa no exterior, muitas dezenas de graus abaixo de zero. Pior do que no polo sul! Por último, a esta altitude, o ar é muito mais rarefeito e não contém oxigénio suficiente para a respiração normal dos humanos.


As janelas dos aviões têm, não só de estar fechadas, como também completamente seladas, tal como acontece com toda a fuselagem. Diz-se que o interior do avião está pressurizado. Se uma janela se abrisse, a pressão de ar no interior e no exterior equilibrar-se-iam rapidamente, bem como a temperatura e quantidade de oxigénio. Os passageiros não tardariam a morrer de frio (hipotermia) e por falta de oxigénio (hipoxia). Nos aviões, quando é detetada despressurização, as máscaras de oxigénio soltam-se automaticamente para evitar a hipoxia, mas a hipotermia a elevadas altitudes continua a ser um perigo mortal. Já agora, os efeitos de sucção violenta característicos dos filmes de Hollywood, em caso de despressurização da cabina, são francamente exagerados e nada têm a ver com a realidade.


Esperemos que por esta altura os assessores de Mitt Romney já lhe tenham explicado porque é que as janelas dos aviões não se podem abrir!

José Paulo Matias (Instituto Politécnico de Bragança) - 2013-07-18 11:16:11