Luta biológica contra o Cancro do Castanheiro

O castanheiro europeu (Castanea sativa Mill.) é uma árvore de folha caduca, de grande porte que pode atingir 30-35 metros de altura. Ocorre no Mediterrâneo e Europa Central em cerca de 15 países, cobrindo mais de 1,5 milhões de hectares. Em Portugal é uma espécie ecologicamente bem adaptada às regiões montanhosas de Trás-os-Montes e Beira Alta sendo produzido num sistema agro-florestal.


A introdução e dispersão de doenças, como a Doença da Tinta e o Cancro do Castanheiro, que conduzem à morte das árvores, colocaram o sistema castanheiro numa situação de fragilidade.


O cancro do castanheiro existe nos países da orla mediterrânica e na Europa central desde os anos 40, sendo de introdução recente em Portugal, com desenvolvimento epidémico conhecido a partir dos finais da década de 90. Manifestou elevada agressividade e uma dispersão muito rápida, tendo, atualmente, distribuição generalizada nas regiões de castanheiro. Não existindo substâncias químicas com capacidade de controlar o avanço da doença nem castanheiros resistentes à doença, o único meio disponível para diminuir os efeitos da doença baseia-se na eliminação dos cancros por remoção dos tecidos doentes. A remoção dos cancros é uma atividade muito laboriosa e de eficácia reduzida, apresentando dificuldades de concretização prática, pela impossibilidade de eliminar todas as fontes de doença, e de aplicar numa escala geográfica alargada. A hipovirulência, mecanismo molecular de redução da agressividade do fungo parasita em castanheiro, foi identificada por Grente & Sauret em 1969 e desenvolvida logo depois para aplicação prática em França. O método mostrou elevada eficácia, levando à remissão dos cancros e recuperação completa dos castanheiros atacados. A hipovirulência foi mais tarde associada à presença de partículas virais denominadas Hypovirus. Estes multiplicam-se apenas no fungo parasita (C. parasitica) e são transmitidos das estirpes hipovirulentas para as agressivas. Em termos práticos, este meio de luta só pode ser utilizado com eficácia quando se conhecem as características da população do parasita de cada local de aplicação. O método apresenta muitas outras vantagens ecológicas, uma vez que o vírus se multiplica exclusivamente no fungo que ataca os castanheiros, num processo de autorreplicação que garante a ausência de efeitos adversos para o ecossistema castanheiro.


Por toda a Europa os programas de controlo do cancro do castanheiro incluem as medidas sanitárias anteriormente referidas e a luta biológica com a introdução de estirpes hipovirulentas que não é eficaz em todas as condições. O sucesso depende da utilização de estirpes hipovirulentas ”compatíveis” com a população de C. parasitica de cada local. Assim, para a eficácia do método, será necessário caracterizar em termos moleculares a estirpe hipovirulenta a utilizar em cada região ou local, fazer a sua produção em laboratório e aplicar por inoculação na extremidade dos cancros.


Sendo bem conhecidos os mecanismos biológicos da hipovirulência e a sua eficácia, o trabalho de base em Portugal, quer científico quer técnico, não tem os apoios necessários para a sua implementação. Como nota final, e em especial para os produtores de castanheiro, é de referir que é completamente desaconselhável a introdução das estirpes utilizadas noutros locais da Europa, uma vez que não soluciona o problema e introduziria maior variabilidade na população do fungo parasita, com consequências imprevisíveis no desenvolvimento epidémico da doença.


A implementação da hipovirulência como meio de luta contra o cancro do castanheiro é um desafio urgente a apoiar para que se concretize em termos da aplicação prática em todas as regiões do castanheiro em Portugal e o sentir do soneto de Camões

A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

continue a existir quando se visitam as serras do interior norte de Portugal.

Eugénia Gouveia (Instituto Politécnico de Bragança) - 2013-06-19 12:19:23