Granizo: o gelo que vem dos céus !

Entre 1989 e 1991 o meu primeiro trabalho levou-me a Munique, na Alemanha. Enquanto por lá vivi, em várias ocasiões me cruzei, nas ruas da cidade, com automóveis que apresentavam estranhas marcas que nunca havia visto. As chapas das carroçarias tinham amolgadelas por toda a superfície, distribuídas de forma intrigantemente uniforme. Demorei, na altura, algum tempo até confirmar com colegas de trabalho a origem destas bizarras marcas. Nos dias de hoje, através da internet, é muito fácil descobri-la. Em 12 de Julho de 1984, Munique e uma região mais alargada da província da Baviera foram devastados pela mais violenta tempestade de granizo de que há memória na Europa. Duzentos mil carros, setenta mil casas e cento e noventa aviões danificados, num prejuízo global de mais de 750 milhões de euros, quatrocentos feridos e um dos maiores pesadelos de perdas na história da indústria seguradora alemã, foram o resultado da queda de pedras de gelo do tamanho de bolas de ténis.


Este fenómeno é bem conhecido em Trás-os-Montes, sobretudo pelos prejuízos que causa na agricultura. Em poucos minutos, o resultado de meses de trabalho pode ser destruído. Que ciência está por detrás da formação de granizo? Em que circunstâncias e em que locais se forma?


O granizo é simplesmente precipitação no estado sólido, sob a forma de gelo. As condições ideais para a sua formação existem no interior de um tipo particular de nuvens, denominadas cumulonimbus, que se caracterizam por um grande desenvolvimento vertical, atingindo altitudes muito elevadas na atmosfera. Este tipo de nuvens está geralmente associado a trovoadas, um tipo de instabilidade climatérica que envolve também ventos fortes e movimentos ascendentes de ar com potencial para promover a formação de gelo. O mecanismo pode ser descrito de uma forma simplificada, como a subida forçada de ar quente e húmido que se condensa ao atingir uma altitude suficiente elevada, formando gotículas de água. Se os movimentos ascendentes forem suficientemente fortes, estas gotículas atingem altitudes onde ocorre a congelação e forma-se gelo nas camadas exteriores.


A formação de granizo é mais provável em latitudes médias, onde as temperaturas à superfície são suficientemente quentes para favorecer o aparecimento de instabilidades associadas às trovoadas, mas também em que as camadas superiores da atmosfera são suficientemente frias para permitir a formação de gelo. A estas latitudes, as cumulonimbus podem desenvolver-se, em grandes tempestades, até altitudes de 16 ou 17 quilómetros na atmosfera. Os pedacinhos de gelo formados nas regiões com temperaturas abaixo do ponto de congelação podem manter-se em circulação durante algum tempo, subindo e descendo na atmosfera, acumulando novas camadas, ao sabor do equilíbrio entre as fortes correntes ascendentes e o seu próprio peso, até caírem. Normalmente não ultrapassam o tamanho de ervilhas, mas se as condições apropriadas estiverem reunidas, este processo pode prolongar-se no tempo e as pedras de granizo podem atingir grandes dimensões, tipicamente do tamanho de bolas de ténis, enquanto os pesos individuais podem ultrapassar um quilograma.


Felizmente, a formação de granizo desta magnitude é um fenómeno relativamente raro, pois requer a existência de várias condições simultâneas: fortes e apropriadas correntes ascendentes, nuvens muito altas para proporcionar temperaturas muito baixas nas camadas altas, com formação de várias camadas de gelo sucessivas. Contudo, quando ocorre, pode provocar danos materiais e humanos gigantescos, como no caso de Munique.

As nuvens cumulonimbus desenvolvem-se até grandes altitudes.

José Paulo Matias (Centro Ciência Viva de Bragança e Instituto Politécnico de Bragança) - 2013-08-21 15:13:29