O lado bom e mau das bactérias

O nosso corpo possui milhares de microrganismos que, quando são inofensivos, são chamados de flora normal. Estes participam nos metabolismos dos produtos alimentares, fornecem fatores essenciais de crescimento, protegem contra infeções provocadas por microrganismos altamente virulentos e ainda estimulam a resposta imunológica. Na ausência destes microrganismos a vida seria impossível.


A flora normal no interior e sobre a superfície do corpo humano encontra-se num estado de fluxo contínuo determinado por uma diversidade de fatores como a idade, a dieta, o estado hormonal, a saúde e a higiene pessoal. Um feto humano vive em ambiente estéril, no entanto, o recém-nascido fica exposto a microrganismos provenientes da mãe e do meio ambiente. O primeiro local a ser colonizado é a pele, seguido da orofaringe, do trato gastrointestinal e de outras superfícies mucosas.


A pele, por exemplo, possui uma flora bacteriana e fúngica, constituída por muitos microrganismos não patogénicos em situações normais. Existem 20 pontos alvo onde estes existem em maior ou menor quantidade. Estes nossos “companheiros” proliferam tanto em ambientes oleosos, como em secos ou húmidos.


Salientando apenas alguns pontos da face, como as sobrancelhas, que contêm 23 espécies de bactérias diferentes, o canal auditivo com 19, e a dobra do nariz com cerca de 18, ficamos já com uma ideia geral da quantidade de microrganismos existentes numa área tão pequena. A zona com menos espécies situa-se atrás das orelhas, com aproximadamente 15, e o antebraço que é a região mais cosmopolita, contém cerca de 44 espécies diferentes no mesmo local.


Partes iguais de pessoas diferentes, têm mais bactérias em comum do que partes diferentes do corpo da mesma pessoa.


Assim, a população microbiana que coloniza o corpo humano é numerosa e diversificada. No decorrer da vida de um indivíduo, ocorre uma profunda alteração desta população de microrganismos. Algumas alterações de saúde, alterações de pH, falta de higiene, uso abusivo de antibióticos, entre outros fatores, podem transformar um microrganismo pertencente à flora normal num patogénico.


Aliás, a maioria das infeções é causada por patógenos oportunistas, ou seja, por microrganismos que são caracteristicamente membros da flora normal do paciente mas que se tornaram patogénicos. Esses microrganismos não provocam doença em circunstâncias normais mas sim quando introduzidos em locais não protegidos, como por exemplo a corrente sanguínea.


Infelizmente, estes microrganismos que tantos benefícios nos trazem podem transformar-se em oportunistas e provocar situações graves. Expomos como exemplo a Neisseria meningitidis que pode colonizar o nariz humano sem exercer qualquer efeito patogénico sobre o indivíduo, mas rapidamente, devido a fatores vários, pode invadir o líquido cefalorraquidiano (LCR) e originar meningite meningocócica, podendo mesmo ter como consequência a morte.

Marisa Barroso e Maria José Alves (Instituto Politécnico de Bragança) - 2013-05-22 14:57:34